Torre de Babel

10.11.09

Eu quis tocar um dia na face de Deus

Sentir a brisa a emanar de cima

Louvar com mãos viradas para os céus

Num altar concebido numa rima

 

Eu quis divinizar a Poesia

Fazer dela a verdade permanente

Nos rosários da pena fugidia

Criar o verso que me faça crente

 

Concebi a Babel de meus pecados

As penitências de sonetos vagos

A torre erguida sem lhe ver fim

 

Mas a ruína veios a passos certos

Caíu a torre, foram-se os meus versos

Ficou só o descrente que há em mim.

 

 

 

publicado por Luis Linhares às 23:29

Psicanálise

08.11.09

Quando ao abismo caíres

Alma pesarosa

Lembra-te porque estás lá

Range os dentes

Mói os ossos

Rasga as vestes da tristeza.

Na vida não há certeza

Apenas os nossos

Dolentes

Passeios da vivência.

Por isso não te demores

Pela podridão humana

Desce e fica, mas não te habitues

Às prisões do corpo.

Porque assim que caíres

Na roda infernal

O moinho não para

E a descida sai-te cara

Iludido.

Dá o que é devido

Às bocas escancaradas dos teus medos

Dá o sangue, dá de ti

Dá as unhas e os dedos

E então tem paciência

E subirás novamente

Ao alvorecer da tua nova existência.

 

publicado por Luis Linhares às 21:49

Poema a Miguel Torga

08.11.09

Quando eu morrer, uns dirão que fui feliz

Outros, que fui arauto de melancolia

Sei que uns irão lembrar tudo o que fiz

E que outros me irão esquecer um dia.

 

Sei que alguns recordarão o que eu lhes dei

Mas a muitos eu não dei coisa nenhuma

E que as ruas e pessoas que eu amei

Passarão como névoa que se esfuma.

 

O meu corpo vai ser pó e cinza e nada

E o meu sangue cessará de se agitar

Como um dia que passou...Fui madrugada

Manhã, tarde, vida breve a sossobrar.

 

Mas aqueles que por meu caixão chorarem

Descerão também às casas do além

Quando aqueles que eu amei também finarem

Eu não mais serei lembrado por ninguém.

 

Mas a vida não se mede pelo tempo

Que é curto para quem o procurar

Ficarão ainda as bagas de um rebento

Fruto novo de raiz sempre a medrar.

 

E o fruto não nasceu por ter nascido

E o fruto permanece em todos nós

Há um princípio em tudo...Tudo é tido

Porque assim também tiveram seus avós.

 

Permanecerei nos traços de algum rosto

Na colheita de uma alegre sementeira

Ficarei numa canção...Em algum gosto

Nas maneiras de podar uma videira.

 

E no dia em que achares que vens do  nada

Lembrarás porque ninguém se é sozinho

Uma pedra é uma pedra....Mas a estrada

São as pedras que perfazem um caminho.

 

publicado por Luis Linhares às 00:12

A palavra não dita

07.11.09

Existe um lugar obscuro

Onde a palavra não foi dita

Onde feiticeiros passam 

Ao luar.

Existe um silêncio futuro

Em que o sangue se agita

E os murmúrios se possam

Escutar

 

E há uma criança deitada

Dentro de mim...É pequenina

Uma imberbe alegoria

A repousar... 

Mas é noite. E a alvorada

Não vem já. Adormece menina

Na esperança de eu um dia

Te acordar

 

E a ti eu chamei-te Poesia

Sangue  meu  sempre a sangrar.

 

 

publicado por Luis Linhares às 23:48

Verdade

02.11.09

 

 

O que é a verdade, a pura  verdade

Senão a certeza das coisas incertas

Palavras ocultas de errantes poetas

As ruas perdidas da minha cidade....

 

A luz que se escoa, a mão que se aperta

A folha a cair  na terra molhada

A ilusão fútil da alma enganada

A beleza eterna da praia deserta...

 

O Amor? A Alegria? ? A verdade é essa?

A Paz entre os Homens e a Utopia?

A mãe exaurida que ao fim do dia

Sofre como quem fizesse promessa?

 

Eu já vi Guernica,  também vi o mar

E vi uma cruz com um Filho ungido

Vi o pobre o rico, e o esquecido

Vi gente a dar vida e gente a tirar...

 

Verdade verdade...Eu sei o que és

És uma ilusão pra sempre interdita

Antes esquecer que a verdade exista

Verdade sou eu...o resto talvez

 

publicado por Luis Linhares às 22:38

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