Quando eu morrer, uns dirão que fui feliz

Outros, que fui arauto de melancolia

Sei que uns irão lembrar tudo o que fiz

E que outros me irão esquecer um dia.

 

Sei que alguns recordarão o que eu lhes dei

Mas a muitos eu não dei coisa nenhuma

E que as ruas e pessoas que eu amei

Passarão como névoa que se esfuma.

 

O meu corpo vai ser pó e cinza e nada

E o meu sangue cessará de se agitar

Como um dia que passou...Fui madrugada

Manhã, tarde, vida breve a sossobrar.

 

Mas aqueles que por meu caixão chorarem

Descerão também às casas do além

Quando aqueles que eu amei também finarem

Eu não mais serei lembrado por ninguém.

 

Mas a vida não se mede pelo tempo

Que é curto para quem o procurar

Ficarão ainda as bagas de um rebento

Fruto novo de raiz sempre a medrar.

 

E o fruto não nasceu por ter nascido

E o fruto permanece em todos nós

Há um princípio em tudo...Tudo é tido

Porque assim também tiveram seus avós.

 

Permanecerei nos traços de algum rosto

Na colheita de uma alegre sementeira

Ficarei numa canção...Em algum gosto

Nas maneiras de podar uma videira.

 

E no dia em que achares que vens do  nada

Lembrarás porque ninguém se é sozinho

Uma pedra é uma pedra....Mas a estrada

São as pedras que perfazem um caminho.

 

publicado por Luis Linhares às 00:12