Delírio ou não

29.03.10

Amor, se este ter-te ou então não ter-te

For como o anunciar da morte certa

For predizer em mim a chaga aberta

De te querer dizer e desdizer-te

 

Se for ter pelos dias um carrasco

A martelar no peito o sacrifício

Amor, eu quererei esse suplício

Esse maldito vinho velho e rasco

 

Essa cicuta! Eu beberei da taça

E nela, reflectida a tua graça

O Anjo que a minha morte anuncia

 

Porque se és tu a Vida que eu procuro

Para a viver…eu morro pró futuro

E troco o mundo pela lage fria!

publicado por Luis Linhares às 14:10

VI

29.03.10

Ser poeta é ser mais alto? Era bom

Se ser poeta fosse só uma alegria

Se o partilhar do triste triste dom

Fosse o alimento para qualquer dia

 

Ser poeta é viver calvário certo

É ser a alma penada sem guarida

É ser um pobre nesta pobre vida

É procurar frescura no deserto

 

Poeta é ser freguês da amargura

É carregar, na face dura e crua

Um olhar triste, tão pesaroso e vago

 

Amigos! Ser poeta é não ter nada

É ter por paz a noite mais pesada

E compensa-la com um vinho amargo.

publicado por Luis Linhares às 14:10

Soneto do cidadão comum

29.03.10

Entre as casas onde um rosto germinava

Nas vielas, a fugir por entre os muros

Entre as putas e os velhos de olhos duros

Procurei, solitário, essa palavra

 

Que me desse a nova luz da existência

Um luar derramado nas janelas

Novos ventos, novos sonhos, caravelas

Algo mais do que a triste penitência

 

No vagar triste e louco de andarilho

Eu vagueio, e voltando a esse trilho

Eu procuro, o teu nome em meu olhar

 

Mas o rosto não ficou por essa rua

E o teu nome, e a tua beleza nua

Apartaram-se, para nunca mais voltar

publicado por Luis Linhares às 14:06

V

29.03.10

São obscuros os teus domínios

E, agoniantes, as urzes que te cobrem

Definham como um poente de amarguras

As rosas que outrora perfumavam

Essas avenidas.

 

Nessa casa, pousam os corvos

Repicam sinos na noite

Na mansão de fantasmas povoada

A tua alma é uma porta fechada

Onde mora um Diabo desfigurado.

publicado por Luis Linhares às 14:03

Ano Novo

04.01.10

Suspende-se no meu espaço uma indefinível crispação

Um traço indelével de um qualquer vácuo sem forma

Um frio que se me entranha por entre a derme e a palpitação

Como um cair de noite sobre uma cidade morna

Gotejar  irregular de um coração que  dir-se-ia moribundo

Sente-se no ar um abismo sem definição e fundo.

 

Arranco às unhas palavras que escrevam orientações

Bússolas  e lábios, rumos de outras polaridades

Cai-me de mim um vinho com o sabor dos limões

Acidez de poetas a  decantar as saudades

Dir-se-ia que estou só no meio da multidão

Mas não existem clichés que abarquem a solidão.

 

 

publicado por Luis Linhares às 01:46

Torre de Babel

10.11.09

Eu quis tocar um dia na face de Deus

Sentir a brisa a emanar de cima

Louvar com mãos viradas para os céus

Num altar concebido numa rima

 

Eu quis divinizar a Poesia

Fazer dela a verdade permanente

Nos rosários da pena fugidia

Criar o verso que me faça crente

 

Concebi a Babel de meus pecados

As penitências de sonetos vagos

A torre erguida sem lhe ver fim

 

Mas a ruína veios a passos certos

Caíu a torre, foram-se os meus versos

Ficou só o descrente que há em mim.

 

 

 

publicado por Luis Linhares às 23:29

Psicanálise

08.11.09

Quando ao abismo caíres

Alma pesarosa

Lembra-te porque estás lá

Range os dentes

Mói os ossos

Rasga as vestes da tristeza.

Na vida não há certeza

Apenas os nossos

Dolentes

Passeios da vivência.

Por isso não te demores

Pela podridão humana

Desce e fica, mas não te habitues

Às prisões do corpo.

Porque assim que caíres

Na roda infernal

O moinho não para

E a descida sai-te cara

Iludido.

Dá o que é devido

Às bocas escancaradas dos teus medos

Dá o sangue, dá de ti

Dá as unhas e os dedos

E então tem paciência

E subirás novamente

Ao alvorecer da tua nova existência.

 

publicado por Luis Linhares às 21:49

Poema a Miguel Torga

08.11.09

Quando eu morrer, uns dirão que fui feliz

Outros, que fui arauto de melancolia

Sei que uns irão lembrar tudo o que fiz

E que outros me irão esquecer um dia.

 

Sei que alguns recordarão o que eu lhes dei

Mas a muitos eu não dei coisa nenhuma

E que as ruas e pessoas que eu amei

Passarão como névoa que se esfuma.

 

O meu corpo vai ser pó e cinza e nada

E o meu sangue cessará de se agitar

Como um dia que passou...Fui madrugada

Manhã, tarde, vida breve a sossobrar.

 

Mas aqueles que por meu caixão chorarem

Descerão também às casas do além

Quando aqueles que eu amei também finarem

Eu não mais serei lembrado por ninguém.

 

Mas a vida não se mede pelo tempo

Que é curto para quem o procurar

Ficarão ainda as bagas de um rebento

Fruto novo de raiz sempre a medrar.

 

E o fruto não nasceu por ter nascido

E o fruto permanece em todos nós

Há um princípio em tudo...Tudo é tido

Porque assim também tiveram seus avós.

 

Permanecerei nos traços de algum rosto

Na colheita de uma alegre sementeira

Ficarei numa canção...Em algum gosto

Nas maneiras de podar uma videira.

 

E no dia em que achares que vens do  nada

Lembrarás porque ninguém se é sozinho

Uma pedra é uma pedra....Mas a estrada

São as pedras que perfazem um caminho.

 

publicado por Luis Linhares às 00:12

A palavra não dita

07.11.09

Existe um lugar obscuro

Onde a palavra não foi dita

Onde feiticeiros passam 

Ao luar.

Existe um silêncio futuro

Em que o sangue se agita

E os murmúrios se possam

Escutar

 

E há uma criança deitada

Dentro de mim...É pequenina

Uma imberbe alegoria

A repousar... 

Mas é noite. E a alvorada

Não vem já. Adormece menina

Na esperança de eu um dia

Te acordar

 

E a ti eu chamei-te Poesia

Sangue  meu  sempre a sangrar.

 

 

publicado por Luis Linhares às 23:48

Verdade

02.11.09

 

 

O que é a verdade, a pura  verdade

Senão a certeza das coisas incertas

Palavras ocultas de errantes poetas

As ruas perdidas da minha cidade....

 

A luz que se escoa, a mão que se aperta

A folha a cair  na terra molhada

A ilusão fútil da alma enganada

A beleza eterna da praia deserta...

 

O Amor? A Alegria? ? A verdade é essa?

A Paz entre os Homens e a Utopia?

A mãe exaurida que ao fim do dia

Sofre como quem fizesse promessa?

 

Eu já vi Guernica,  também vi o mar

E vi uma cruz com um Filho ungido

Vi o pobre o rico, e o esquecido

Vi gente a dar vida e gente a tirar...

 

Verdade verdade...Eu sei o que és

És uma ilusão pra sempre interdita

Antes esquecer que a verdade exista

Verdade sou eu...o resto talvez

 

publicado por Luis Linhares às 22:38

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